Documentação, ADRs e contratos: fundamentos, prática e diagnóstico
Este capítulo integra o modelo mental e a prática de documentação, adrs e contratos em uma única jornada didática. O leitor começa pelo problema operacional, aprende o vocabulário — incluindo README, runbook, ADR, RFC, OpenAPI — e localiza responsabilidades e fronteiras antes de comparar decisões. Em seguida aplica o conceito ao sistema de manutenção conectado ao ERP, executa a menor fatia verificável e provoca falhas de permissão, timeout, duplicata, concorrência ou dado inválido. O caderno operacional mostra como observar o resultado, diagnosticar a primeira divergência e produzir evidência reproduzível. Segurança, custo, critérios de aceite e perguntas de recuperação encerram a unidade sem separar teoria de operação.
Documentação, ADRs e contratos: modelo mental e decisões
O problema e por que importa
Documentação útil reduz a distância entre intenção e evidência. README orienta entrada, ADR preserva uma decisão difícil de reverter, runbook guia operação e contrato descreve uma interface. Um único documento tentando servir a todos esses objetivos fica desatualizado e difícil de verificar.
Quando o ERP muda seu contrato, a pergunta é: onde o desenvolvedor encontra a interface vigente, por que a estratégia foi escolhida, quem responde pelo sistema e como operar uma falha? A resposta deve apontar artefatos pequenos, donos e sinais verificáveis.
Vocabulário antes das siglas
- README: porta de entrada que explica propósito, execução, verificação e caminhos para documentação mais profunda.
- runbook: procedimento operacional acionável para diagnosticar, mitigar e recuperar uma condição.
- ADR: architecture decision record; registro curto do contexto, decisão, alternativas e consequências arquiteturais.
- RFC: proposta estruturada submetida a discussão antes de uma mudança relevante.
- OpenAPI: contrato estruturado de uma API HTTP, consumível por pessoas e ferramentas.
- changelog: registro orientado ao consumidor das mudanças relevantes entre versões.
- ownership: responsabilidade explícita por manter, decidir e responder por um artefato ou serviço.
- diagrama: representação visual com escopo e legenda definidos para comunicar relações específicas.
- source of truth: fonte canônica da qual representações derivadas são geradas ou reconciliadas.
- drift: divergência entre documentação, contrato, configuração ou comportamento real.
O artefato correto depende da pergunta. “Como rodar?” pertence ao README; “por que escolhemos?” ao ADR; “o que fazer às 3h?” ao runbook; “qual mensagem aceitamos?” ao contrato.
Modelo mental
documentação é uma interface para pessoas; deve responder uma decisão ou tarefa e ser testada como código. A analogia ajuda a localizar responsabilidades; ela deixa de valer quando esconde concorrência, falhas parciais ou atores maliciosos. Software distribuído não tem uma única percepção de tempo nem sucesso: uma resposta pode se perder depois de um efeito ter ocorrido.
Ler o fluxo em texto
- 1. Pergunta concreta
- 2. Artefato adequado
- 3. Owner
- 4. Drift detectado
- 5. Teste ou revisão
Fronteira e responsabilidade
A fonte canônica deve ficar próxima do elemento que descreve e possuir um fluxo de revisão compatível. Código de exemplo precisa ser executado; contrato deve ser validado; runbook deve ser ensaiado. Páginas derivadas são geradas, não copiadas manualmente.
Documentar toda conversa cria ruído. Preserve decisões duráveis, interfaces, riscos, operação e evidências. Contexto efêmero pode permanecer em tickets; uma conclusão que muda a arquitetura merece ADR; uma regra determinística deve virar teste ou CI.
Decisão orientada por risco
| Pergunta de projeto | Decisão inicial | Evidência exigida |
|---|---|---|
| Que pergunta o artefato responde? | Escolher README, ADR, RFC, contrato ou runbook | Leitor encontra a resposta sem adivinhar |
| Onde manter? | Junto da fonte que muda | Link e owner aparecem no repositório |
| Como detectar drift? | Geração e teste automatizados | CI falha quando contrato diverge |
| Quando arquivar? | Após substituição e janela de auditoria | Índice diferencia atual e histórico |
A alternativa mais complexa só é promovida quando essa evidência mostra que a solução atual não atende ao risco. A decisão registra também custo operacional, forma de reversão e responsável.
Caso real: manutenção conectada ao ERP
O eletricista conclui a OS 742. O sistema valida identidade, unidade, estado atual e evidências; persiste a mudança; registra auditoria; publica a integração; informa “sincronização pendente” se o ERP não responder. A decisão deste livro aparece ao preservar contexto suficiente para operar, mudar e ensinar o sistema. O sucesso não é apenas HTTP 200: banco, usuário, fila, ERP e telemetria precisam convergir para um estado conhecido.
Falha orientadora
diagrama bonito contradiz produção e runbook depende da memória de quem saiu da empresa. Trate a falha como cenário de projeto, não exceção improvável. O controle principal é docs-as-code, owners, links verificáveis, exemplos testados e data de revisão. Seu teste deve falhar antes do controle e passar depois dele.
Segurança, privacidade e custo
- Redija exemplos com valores fictícios; documentação não é local para credenciais reais.
- Classifique diagramas e runbooks que revelem topologia ou procedimentos sensíveis.
- Registre owner e revisão de políticas críticas; ausência de dono é risco operacional.
- Preserve histórico suficiente para auditoria sem manter dados pessoais além da finalidade.
O manual de Cybersecurity aprofunda threat modeling, identidade, proteção de dados, supply chain e resposta a incidentes; os controles acima são a aplicação específica nesta disciplina.
Erros frequentes e diagnóstico
- Tecnologia antes do problema: registre hipótese e atributo de qualidade que justificam a escolha.
- Caminho feliz apenas: injete timeout, duplicata, concorrência, permissão negada e dado inválido.
- Métrica de vaidade: acompanhe idade, links quebrados, tempo de onboarding, incidentes sem runbook e contratos divergentes e ligue o sinal a uma decisão.
- Automação sem condição de parada: limite tentativas e torne o estado pendente visível.
- Documentação sem prova: execute exemplos e conecte diagramas a arquivos, owners e testes.
Critérios de aceite
- Fronteira, dono, entradas, saídas e dependências estão diagramados.
- Caminho feliz e falha parcial possuem testes reproduzíveis.
- O controle “docs-as-code, owners, links verificáveis, exemplos testados e data de revisão” tem evidência observável.
- Segurança, privacidade, acessibilidade, custo e operação foram avaliados.
- A métrica “idade, links quebrados, tempo de onboarding, incidentes sem runbook e contratos divergentes” possui unidade, janela e responsável.
- Runbook informa diagnóstico, mitigação, recuperação e escalonamento.
Prática e recuperação ativa
- Desenhe a jornada da OS 742 e marque onde esta camada começa e termina.
- Explique a diferença entre ocultar uma ação e negar sua autorização no servidor.
- Injete a falha “diagrama bonito contradiz produção e runbook depende da memória de quem saiu da empresa” e capture evidência antes/depois do controle.
- Transfira o raciocínio para um pedido de e-commerce: o que permanece e o que muda?
Entregável verificável: README executável, ADR de uma decisão real, contrato validado no CI e runbook ensaiado com evidência de revisão. A entrega só é aceita quando outra pessoa consegue repetir a verificação.
Fontes primárias e oficiais
Revisão editorial: 2 de agosto de 2026. Confirme versões antes de implementar configuração volátil.
Da compreensão à execução
O modelo anterior explica o que precisa permanecer verdadeiro. Agora o caderno transforma essa compreensão em um experimento. Antes de executar, escreva sua previsão; depois compare o observado com o esperado e registre a primeira fronteira onde o estado divergiu.
Objetivo, hipótese e ambiente
Objetivo: demonstrar preservar contexto suficiente para operar, mudar e ensinar o sistema em uma fatia da jornada de manutenção. Hipótese: o controle “docs-as-code, owners, links verificáveis, exemplos testados e data de revisão” reduz a falha escolhida sem violar o contrato das camadas vizinhas.
Pré-requisitos: Git, terminal, TypeScript ou a tecnologia indicada no exemplo, ambiente local isolado e dados sintéticos. Duração orientativa: 90–180 minutos; depende de prática, não de leitura. Não use credenciais reais nem produção.
sequenceDiagram
actor E as Eletricista
participant W as Aplicativo
participant A as API de manutenção
participant D as Estado canônico
participant R as ERP
E->>W: conclui OS 742
W->>A: intenção + identidade + idempotency-key
A->>D: valida e persiste
A-->>W: estado confirmado ou pendente
A->>R: integração controlada
R-->>A: confirmação, rejeição ou timeoutPasso 1 — registre o contrato antes do código
Escreva pré-condição, pós-condição, erros esperados, timeout e política de repetição. Separe “aceito para processamento” de “confirmado pelo ERP”. Defina o que a pessoa verá durante incerteza. O contrato deve caber em uma tabela e ser revisado por negócio, desenvolvimento, segurança e operação.
| Situação | Resultado público | Estado interno | Próxima ação |
|---|---|---|---|
| Entrada válida | confirmado ou 202 pendente | registrado | processar/observar |
| Sem permissão | negação estável | nenhuma mutação | auditar |
| Duplicata | mesmo resultado lógico | um efeito | responder idempotente |
| Dependência lenta | timeout controlado | pendente conhecido | retry com limite |
| Dado incompatível | erro de contrato | quarentena | corrigir/reprocessar |
Passo 2 — implemente a menor fatia vertical
O trecho é didático e precisa ser adaptado ao runtime indicado. Ele ilustra a decisão central, não constitui aplicação completa.
# ADR-004: Outbox para integração com ERP
Status: aceita
Decisão: persistir evento na transação da OS.
Consequência: consumidor idempotente obrigatório.Mantenha a mudança pequena: interface, regra, persistência, teste e sinal operacional no mesmo ticket. Evite construir “toda a infraestrutura” antes de uma jornada observável.
Passo 3 — prove o caminho feliz e o negativo
- Execute uma OS válida e capture resposta, estado persistido e correlation ID.
- Repita a mesma intenção; o efeito lógico deve continuar único.
- Remova a permissão; nenhum estado deve mudar.
- Force timeout do ERP; a UI deve mostrar estado honesto e a fila não pode crescer sem limite.
- Corrompa um campo do contrato; rejeite-o com erro útil, sem stack trace nem segredo.
O teste negativo é parte do produto. Sem ele, o controle pode existir apenas no diagrama.
Passo 4 — instrumente a decisão
Registre duração, resultado, dependência, versão do contrato e correlação. Não use nome, e-mail, token, payload completo nem user_id como dimensão ilimitada de métrica. Para este livro, acompanhe idade, links quebrados, tempo de onboarding, incidentes sem runbook e contratos divergentes. Defina SLI, janela, limiar e ação humana associada.
Exemplo de evento estruturado conceitual:
{
"event": "work_order.transition",
"order_id": "742",
"result": "pending_erp",
"contract_version": "v1",
"correlation_id": "demo-01",
"duration_ms": 184
}Passo 5 — injete falha e recupere
Falha-alvo: diagrama bonito contradiz produção e runbook depende da memória de quem saiu da empresa.
- Detectar: qual sinal diferencia falha real de tráfego normal?
- Conter: como impedir propagação, repetição ilimitada ou perda de dados?
- Mitigar: qual recurso pode ser desativado ou degradado com segurança?
- Recuperar: como reprocessar sem duplicar efeito?
- Aprender: qual teste, alerta, ADR ou limite impedirá recorrência?
Use timeout curto no laboratório e retry limitado com atraso e jitter. Um retry não é recuperação quando a operação não é idempotente. Registre itens que exigem intervenção humana em fila consultável; não esconda exceções em log.
Segurança e abuso
Faça uma mini análise: ativo, ator, fronteira, ameaça, impacto, controle e teste. Teste acesso horizontal entre unidades, elevação de perfil, payload grande, repetição rápida, dado fora de ordem e indisponibilidade. O controle esperado é docs-as-code, owners, links verificáveis, exemplos testados e data de revisão. Valide no servidor e preserve evidência sem expor segredos.
Troubleshooting
| Sintoma | Hipótese | Verificação | Correção segura |
|---|---|---|---|
| Estado diverge do ERP | efeito parcial | correlação + outbox/inbox | reconciliar idempotentemente |
| Latência cresce | fila ou dependência saturada | p95/p99, lag, pool | backpressure e capacidade |
| Só um tenant falha | escopo, dado ou quota | dimensão de tenant controlada | corrigir política/dado |
| Retry aumenta erro | operação não idempotente | contar efeitos por chave | deduplicar e limitar |
| Dashboard “verde” | SLI não representa jornada | teste sintético E2E | medir resultado do usuário |
Critérios de aceite verificáveis
- Caminho feliz, entrada inválida, negação, duplicata e timeout foram executados.
- O segundo envio com a mesma chave não produz segundo efeito.
- Nenhum segredo ou dado pessoal aparece em saída, log ou fixture.
- A falha é detectada por sinal antes da reclamação do usuário.
- Existe estado explícito para pendência e procedimento de reconciliação.
- O resultado inclui teste, captura de telemetria, ADR e atualização do runbook.
Evidência, limpeza e solução comentada
Guarde: comandos, versões, saída dos testes, screenshot do fluxo, consulta de estado e gráfico do sinal. Remova ambiente e dados sintéticos; revogue qualquer credencial de laboratório. A solução adequada não é uma ferramenta específica: é a menor composição que satisfaz o contrato e demonstra recuperação.
Exercícios de transferência
- Troque ERP por gateway de pagamento. Quais garantias ficam mais rígidas?
- Troque OS por leitura de sensor offline. Onde ordenar e deduplicar?
- Reduza o RTO pela metade. Qual custo e complexidade aparecem?
- Explique em voz alta por que
documentação é uma interface para pessoas; deve responder uma decisão ou tarefa e ser testada como códigoé útil e onde a analogia quebra.
Fontes
Consulte as fontes oficiais do capítulo conceitual e registre versão/data no relatório do laboratório. Para observabilidade, use OpenTelemetry; para segurança, use o manual canônico.
Comprove o que você aprendeu
Responda todas as questões. O gabarito comentado só aparece depois do envio.