Backend, domínio e jobs: modelo mental e decisões

O problema e por que importa

O backend é o lugar onde regras que não podem depender da interface são aplicadas. Ele coordena identidade, estado, transações e efeitos externos. Se regras ficam espalhadas por controllers, jobs e telas, dois caminhos diferentes podem aceitar estados incompatíveis.

Ao concluir a OS 742, a regra “uma ordem cancelada não pode ser concluída” precisa valer no aplicativo web, no celular, numa importação e num job. A pergunta concreta é: qual componente possui a autoridade para verificar a transição e como o efeito no ERP será retomado sem executar duas vezes?

Vocabulário antes das siglas

  • controller: adaptador que traduz a entrada do protocolo, chama o caso de uso e converte o resultado em resposta.
  • use case: caso de uso; coordenação de uma intenção do usuário ou sistema segundo as regras do domínio.
  • entidade: objeto do domínio reconhecido por identidade e comportamento ao longo do tempo.
  • serviço: componente que concentra uma capacidade; o nome sozinho não define se é domínio, aplicação ou infraestrutura.
  • invariante: condição que deve permanecer verdadeira em toda mudança válida do modelo.
  • transação: unidade de trabalho que confirma todas as mudanças abrangidas ou desfaz o conjunto.
  • job: trabalho executado fora do ciclo imediato da requisição, geralmente por agenda ou fila.
  • idempotência: garantia de que uma intenção repetida não produz efeitos lógicos duplicados.
  • outbox: padrão que grava a mudança de negócio e o evento a publicar na mesma transação local.

Controller cuida do protocolo; caso de uso coordena; entidade protege invariantes; adaptadores falam com banco, fila e ERP. Essa separação não exige microserviços: pode existir dentro de um único processo.

Modelo mental

o backend é o árbitro: recebe intenção, valida autoridade e invariantes, persiste uma decisão e publica evidência. A analogia ajuda a localizar responsabilidades; ela deixa de valer quando esconde concorrência, falhas parciais ou atores maliciosos. Software distribuído não tem uma única percepção de tempo nem sucesso: uma resposta pode se perder depois de um efeito ter ocorrido.

Fluxo: HTTP ou job, Caso de uso, Invariante, Outbox pendente, ERP reconciliadoHTTP ou jobCaso de usoInvarianteOutbox pendenteERP reconciliado
Ler o fluxo em texto
  1. 1. HTTP ou job
  2. 2. Caso de uso
  3. 3. Invariante
  4. 4. Outbox pendente
  5. 5. ERP reconciliado

Fronteira e responsabilidade

A fronteira de aplicação recebe um comando já identificado, mas ainda valida autorização e estado atual. O caso de uso controla a transação e registra a intenção externa; adaptadores traduzem banco, fila e ERP. Um controller não decide regra de negócio só porque foi o primeiro a receber a requisição.

Jobs precisam de identidade da tarefa, limite de tentativas, lease ou outra proteção de concorrência, telemetria e estado terminal. “Rodar em segundo plano” não elimina a necessidade de contrato; apenas muda quem aguarda a resposta.

Decisão orientada por risco

Pergunta de projeto Decisão inicial Evidência exigida
Onde fica a regra? No domínio ou caso de uso, testável sem HTTP Mesma regra vale em API e job
Como publicar efeito externo? Outbox transacional Falha entre banco e fila é reproduzida
Como retomar job? Checkpoint e operação idempotente Worker cai após o efeito e reinicia
Quando separar serviço? Quando fronteira organizacional e operacional justificar Métrica demonstra benefício sobre o monólito

A alternativa mais complexa só é promovida quando essa evidência mostra que a solução atual não atende ao risco. A decisão registra também custo operacional, forma de reversão e responsável.

Caso real: manutenção conectada ao ERP

O eletricista conclui a OS 742. O sistema valida identidade, unidade, estado atual e evidências; persiste a mudança; registra auditoria; publica a integração; informa “sincronização pendente” se o ERP não responder. A decisão deste livro aparece ao aplicar regras de negócio, proteger invariantes e coordenar trabalho síncrono e assíncrono. O sucesso não é apenas HTTP 200: banco, usuário, fila, ERP e telemetria precisam convergir para um estado conhecido.

Falha orientadora

a API responde erro após gravar no ERP; o retry cria outra baixa de estoque. Trate a falha como cenário de projeto, não exceção improvável. O controle principal é chave idempotente, transação local, outbox, timeout, retry limitado e compensação explícita. Seu teste deve falhar antes do controle e passar depois dele.

Segurança, privacidade e custo

  • Revalide autorização no caso de uso; um job não herda permissões implícitas da interface.
  • Use contas de serviço com escopo mínimo e credenciais rotacionáveis.
  • Limite concorrência, duração e quantidade de tentativas de cada job.
  • Registre transições e efeitos externos com correlação, sem copiar segredos para a fila.

O manual de Cybersecurity aprofunda threat modeling, identidade, proteção de dados, supply chain e resposta a incidentes; os controles acima são a aplicação específica nesta disciplina.

Erros frequentes e diagnóstico

  1. Tecnologia antes do problema: registre hipótese e atributo de qualidade que justificam a escolha.
  2. Caminho feliz apenas: injete timeout, duplicata, concorrência, permissão negada e dado inválido.
  3. Métrica de vaidade: acompanhe latência por caso de uso, falhas por dependência, retries, jobs atrasados e inconsistências e ligue o sinal a uma decisão.
  4. Automação sem condição de parada: limite tentativas e torne o estado pendente visível.
  5. Documentação sem prova: execute exemplos e conecte diagramas a arquivos, owners e testes.

Critérios de aceite

  • Fronteira, dono, entradas, saídas e dependências estão diagramados.
  • Caminho feliz e falha parcial possuem testes reproduzíveis.
  • O controle “chave idempotente, transação local, outbox, timeout, retry limitado e compensação explícita” tem evidência observável.
  • Segurança, privacidade, acessibilidade, custo e operação foram avaliados.
  • A métrica “latência por caso de uso, falhas por dependência, retries, jobs atrasados e inconsistências” possui unidade, janela e responsável.
  • Runbook informa diagnóstico, mitigação, recuperação e escalonamento.

Prática e recuperação ativa

  1. Desenhe a jornada da OS 742 e marque onde esta camada começa e termina.
  2. Explique a diferença entre ocultar uma ação e negar sua autorização no servidor.
  3. Injete a falha “a API responde erro após gravar no ERP; o retry cria outra baixa de estoque” e capture evidência antes/depois do controle.
  4. Transfira o raciocínio para um pedido de e-commerce: o que permanece e o que muda?

Entregável verificável: diagrama controller–caso de uso–adaptadores, teste de invariante, teste de queda do worker e evidência de reprocessamento idempotente. A entrega só é aceita quando outra pessoa consegue repetir a verificação.

Fontes primárias e oficiais

Revisão editorial: 2 de agosto de 2026. Confirme versões antes de implementar configuração volátil.

Da compreensão à execução

O modelo anterior explica o que precisa permanecer verdadeiro. Agora o caderno transforma essa compreensão em um experimento. Antes de executar, escreva sua previsão; depois compare o observado com o esperado e registre a primeira fronteira onde o estado divergiu.

Objetivo, hipótese e ambiente

Objetivo: demonstrar aplicar regras de negócio, proteger invariantes e coordenar trabalho síncrono e assíncrono em uma fatia da jornada de manutenção. Hipótese: o controle “chave idempotente, transação local, outbox, timeout, retry limitado e compensação explícita” reduz a falha escolhida sem violar o contrato das camadas vizinhas.

Pré-requisitos: Git, terminal, TypeScript ou a tecnologia indicada no exemplo, ambiente local isolado e dados sintéticos. Duração orientativa: 90–180 minutos; depende de prática, não de leitura. Não use credenciais reais nem produção.

sequenceDiagram
  actor E as Eletricista
  participant W as Aplicativo
  participant A as API de manutenção
  participant D as Estado canônico
  participant R as ERP
  E->>W: conclui OS 742
  W->>A: intenção + identidade + idempotency-key
  A->>D: valida e persiste
  A-->>W: estado confirmado ou pendente
  A->>R: integração controlada
  R-->>A: confirmação, rejeição ou timeout

Passo 1 — registre o contrato antes do código

Escreva pré-condição, pós-condição, erros esperados, timeout e política de repetição. Separe “aceito para processamento” de “confirmado pelo ERP”. Defina o que a pessoa verá durante incerteza. O contrato deve caber em uma tabela e ser revisado por negócio, desenvolvimento, segurança e operação.

Situação Resultado público Estado interno Próxima ação
Entrada válida confirmado ou 202 pendente registrado processar/observar
Sem permissão negação estável nenhuma mutação auditar
Duplicata mesmo resultado lógico um efeito responder idempotente
Dependência lenta timeout controlado pendente conhecido retry com limite
Dado incompatível erro de contrato quarentena corrigir/reprocessar

Passo 2 — implemente a menor fatia vertical

O trecho é didático e precisa ser adaptado ao runtime indicado. Ele ilustra a decisão central, não constitui aplicação completa.

await tx.run(async () => {
  await orders.complete(orderId, actor);
  await outbox.append({ type: "OrderCompleted", orderId });
});

Mantenha a mudança pequena: interface, regra, persistência, teste e sinal operacional no mesmo ticket. Evite construir “toda a infraestrutura” antes de uma jornada observável.

Passo 3 — prove o caminho feliz e o negativo

  1. Execute uma OS válida e capture resposta, estado persistido e correlation ID.
  2. Repita a mesma intenção; o efeito lógico deve continuar único.
  3. Remova a permissão; nenhum estado deve mudar.
  4. Force timeout do ERP; a UI deve mostrar estado honesto e a fila não pode crescer sem limite.
  5. Corrompa um campo do contrato; rejeite-o com erro útil, sem stack trace nem segredo.

O teste negativo é parte do produto. Sem ele, o controle pode existir apenas no diagrama.

Passo 4 — instrumente a decisão

Registre duração, resultado, dependência, versão do contrato e correlação. Não use nome, e-mail, token, payload completo nem user_id como dimensão ilimitada de métrica. Para este livro, acompanhe latência por caso de uso, falhas por dependência, retries, jobs atrasados e inconsistências. Defina SLI, janela, limiar e ação humana associada.

Exemplo de evento estruturado conceitual:

{
  "event": "work_order.transition",
  "order_id": "742",
  "result": "pending_erp",
  "contract_version": "v1",
  "correlation_id": "demo-01",
  "duration_ms": 184
}

Passo 5 — injete falha e recupere

Falha-alvo: a API responde erro após gravar no ERP; o retry cria outra baixa de estoque.

  • Detectar: qual sinal diferencia falha real de tráfego normal?
  • Conter: como impedir propagação, repetição ilimitada ou perda de dados?
  • Mitigar: qual recurso pode ser desativado ou degradado com segurança?
  • Recuperar: como reprocessar sem duplicar efeito?
  • Aprender: qual teste, alerta, ADR ou limite impedirá recorrência?

Use timeout curto no laboratório e retry limitado com atraso e jitter. Um retry não é recuperação quando a operação não é idempotente. Registre itens que exigem intervenção humana em fila consultável; não esconda exceções em log.

Segurança e abuso

Faça uma mini análise: ativo, ator, fronteira, ameaça, impacto, controle e teste. Teste acesso horizontal entre unidades, elevação de perfil, payload grande, repetição rápida, dado fora de ordem e indisponibilidade. O controle esperado é chave idempotente, transação local, outbox, timeout, retry limitado e compensação explícita. Valide no servidor e preserve evidência sem expor segredos.

Troubleshooting

Sintoma Hipótese Verificação Correção segura
Estado diverge do ERP efeito parcial correlação + outbox/inbox reconciliar idempotentemente
Latência cresce fila ou dependência saturada p95/p99, lag, pool backpressure e capacidade
Só um tenant falha escopo, dado ou quota dimensão de tenant controlada corrigir política/dado
Retry aumenta erro operação não idempotente contar efeitos por chave deduplicar e limitar
Dashboard “verde” SLI não representa jornada teste sintético E2E medir resultado do usuário

Critérios de aceite verificáveis

  • Caminho feliz, entrada inválida, negação, duplicata e timeout foram executados.
  • O segundo envio com a mesma chave não produz segundo efeito.
  • Nenhum segredo ou dado pessoal aparece em saída, log ou fixture.
  • A falha é detectada por sinal antes da reclamação do usuário.
  • Existe estado explícito para pendência e procedimento de reconciliação.
  • O resultado inclui teste, captura de telemetria, ADR e atualização do runbook.

Evidência, limpeza e solução comentada

Guarde: comandos, versões, saída dos testes, screenshot do fluxo, consulta de estado e gráfico do sinal. Remova ambiente e dados sintéticos; revogue qualquer credencial de laboratório. A solução adequada não é uma ferramenta específica: é a menor composição que satisfaz o contrato e demonstra recuperação.

Exercícios de transferência

  1. Troque ERP por gateway de pagamento. Quais garantias ficam mais rígidas?
  2. Troque OS por leitura de sensor offline. Onde ordenar e deduplicar?
  3. Reduza o RTO pela metade. Qual custo e complexidade aparecem?
  4. Explique em voz alta por que o backend é o árbitro: recebe intenção, valida autoridade e invariantes, persiste uma decisão e publica evidência é útil e onde a analogia quebra.

Fontes

Consulte as fontes oficiais do capítulo conceitual e registre versão/data no relatório do laboratório. Para observabilidade, use OpenTelemetry; para segurança, use o manual canônico.

Teste de fixação

Comprove o que você aprendeu

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1. Onde deve valer a regra 'OS cancelada não pode ser concluída'?
2. Como registrar a mudança da OS e a intenção de avisar o ERP sem janela entre commits?
3. Que contrato mínimo torna um job recuperável e observável?

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